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  • Nutty Ramos

O diálogo está fazendo um apelo à vida

O suicídio (assim como sua tentativa) é um fenômeno humano complexo, multifatorial que está integrado a experiências pessoais de trauma, perda, ausência de sentido na vida, tristeza e profunda angústia, com efeitos sobre o indivíduo e o coletivo. O suicida é a pessoa que não vê saída para a situação de crise em que se encontra: sua intenção não é o fim da vida, mas o fim de sua dor.


Dada a seriedade do assunto para a saúde mental individual e coletiva, foi criado no dia 10 de setembro de 2003 o Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio e alívio dos sintomas do suicídio, que tem como símbolo da campanha um laço amarelo, fruto de iniciativa da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP) e do apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS).


Essa data surge, segundo o Presidente em exercício da IASP – Professor Murad Khan – para alertar e educar a sociedade mundial sobre o tema e para buscar aliviar os efeitos do suicídio. O suicídio e o comportamento suicida passaram a ser tratados como um problema de saúde pública no mundo todo, acompanhando dados preocupantes coletados pela OMS: internacionalmente, um milhão de pessoas vêm a óbito tendo por causa o suicídio a cada ano (o que representa uma morte por suicídio a cada 40 segundos), apesar de tais ocorrências serem preveníveis em até 90% dos casos.

No que tange especificamente o Brasil, informações do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2017 mostraram que onze mil brasileiros tiraram suas vidas em um ano e o mais grave: sabe-se que esta é a quarta maior causa de morte na população jovem (entre 15 e 29 anos). Estando evidentemente caracterizada a importância da discussão do tema como relevante para a saúde pública, o Ministério da Saúde e demais instituições que prestam serviço nesta área – entre elas o Centro de Valorização da Vida (CCV) que trabalha há 54 anos no atendimento de pessoas de risco – buscam realizar um trabalho de cunho preventivo.

Para Robert Paris, presidente do CVV, “todo suicídio é, em geral, uma história de muito sofrimento e a morte na sociedade tende a ser percebida como um tabu: as pessoas não gostam e não querem ouvir falar, mas é isso que precisa mudar”. Ele crê ser necessário quebrar a convicção de que dialogar sobre suicídio na mídia agrava o problema ou mesmo o estimula. Para Robert, falar salva, mas é preciso falar com seriedade, pois é atuando dentro desse paradigma que instituições do mundo todo criam campanhas como o Setembro Amarelo para incitar a sociedade a refletir sobre o tema usando de informação, sensibilização e esclarecimento. Desta forma, procura-se educar as pessoas a prestar atenção aos demais indivíduos em seu convívio, a identificar alguém que esteja no seu alcance passando por um momento de crise e a conversar e orientar essa pessoa a buscar ajuda profissional em saúde mental.



Esclarecer e sensibilizar sobre o tema, em um primeiro momento, consiste em entender o suicídio como um processo interno, que se inicia pelo pensamento, desejo e planejamento de realizar o ato. Todavia é necessário ir além deste raciocínio e compreender que esse processo interno se instala em momento posterior às fases em que a pessoa viveu ou ainda vive contínuos momentos de crise. Neste contexto está o sujeito procurando, por diferentes meios, uma saída para a solução de seus conflitos, por alívio de sua angústia existencial, mas apesar de seu intuito de resolução do problema, fracassa.


É nessa situação de tensão, sentindo-se só, angustiada e sem perspectiva, que a pessoa perde o controle sobre sua capacidade pessoal de superação e autocontrole e passa a buscar a morte autoprovocada. Isto ocorre, sobretudo, porque funções Psicológicas e Cognitivas como o pensamento, a atenção, a percepção, a memória, a autoestima, o autoconceito e o afeto ficam comprometidos neste período em que o indivíduo solitariamente se empenhou em superar a crise.

Aliás, as causas não estão apenas na pessoa que vive contínuos momentos de estresse e crise, mas é resultado de uma complexa interação de fatores que pode estar relacionada a dificuldades sociais, ambientais, culturais, psiquiátricas e psicológicas como a Depressão, a Ansiedade ou uso de substâncias entorpecentes. Patologias mentais como transtorno bipolar, depressão severa e esquizofrenia são também fatores de risco. Dentre os fatores relevantes, a Depressão tem sido apontada como a condição mais comum associada ao suicídio, contudo, na maioria dos casos, não foi diagnosticada e nem tratada a tempo segundo estudos da Fundação Americana para Prevenção do Suicídio.


A atitude de dialogar sempre foi central em saúde mental, inclusive sendo tema de pesquisa do Psicólogo Júlio Peres Doutor em Neurociências e Comportamento pela USP e PHD pela Universidade da Pensilvânia. Ele comprovou que falar sobre experiências de sofrimento reorganiza sentimentos, assim como narrar um trauma modifica funções cerebrais e auxilia a superar a dor. Isso foi evidenciado por meio de exames em pacientes que, ao final do tratamento pela Psicoterapia, foram submetidos a exames de tomografia. As imagens obtidas revelaram maior atividade no córtex pré-frontal (área que está relacionada com a classificação das experiências) e menor atividade cerebral da amígdala (região que está associada à expressão do medo). “Isso – disse Peres – fortaleceu a tese de que falar sobre os problemas ajuda a pessoa traumatizada a controlar a memória da dor que sofreu”. Por sua vez, pessoas em sofrimento que se encontravam em situação de isolamento e, portanto, não compartilharam suas experiências, terminam com memórias traumáticas fragmentadas, sem possibilidade de atribuir um significado para o que aconteceu, seus sentimentos e suas sensações.


Ao dialogarmos sobre o suicídio abrimos espaço para perceber e identificar sinais de alerta em alguém próximo a nós que pode necessitar de auxílio, inclusive ajudando a buscar profissional em saúde mental. Com o devido encaminhamento e apoio terapêutico clínico Psicológico e Psiquiátrico, a pessoa em tratamento terá a oportunidade para ressignificar crises e buscar aprendizado naquele acontecimento, o que permitirá aliviar a dor, obter conforto, desenvolver habilidades, se reerguer e edificar um novo caminho com melhores escolhas. Poderá, então, resgatar o retorno do sentido da vida, das relações pessoais, de suas atividades habituais e o seu contato com o mundo novamente.


Considerando a inerente pessoalidade das experiências relacionadas ao suicídio, não existe uma “receita” ou uma “dica infalível” para identificar se determinado indivíduo tem algum tipo de tendência suicida ou não, sendo sempre necessária a avaliação profissional. Contudo, existem certos comportamentos comuns que devem ser considerados com a necessária seriedade, por frequentemente caracterizar indícios do pensamento suicida.


Fique atento a comportamentos ou frases que possam ter como conteúdo:

  • Isolamento, cansaço, mudanças de humor e de rotina.

  • Falta de cuidado com a higiene e alimentação.

  • Ausência de significado e motivo em viver.

  • Pensamentos repetitivos de ruína e incompetência.

  • Sentimentos de culpa, vergonha ou tristeza crônica.

  • Desesperança, impulsividade e despedidas a pessoas próximas.

  • Atenção a estes sinais pode ajudar imensamente a identificar sinais do problema, permitindo agir preventivamente.


Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?


CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde).

UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro; Hospitais

Centro de Valorização da Vida   CVV –  188  (ligação gratuita)  24 horas todos os dias

Profissionais Psicólogos

Médicos Psiquiatras


Bibliografia:


Buber, M. (1982). Do diálogo e do dialógico. São Paulo: Perspectiva. 

Hycner, R. (1995). De Pessoa a Pessoa. São Paulo: Summus.    

Hycner, R., & Jacobs, A. (1997). Relação e Cura em Gestalt- Terapia. São Paulo: Summus.

FREITAS, Joanneliese de Lucas; STROIEK, Nutty Nadir; BOTIN, Débora. Gestalt-terapia e o diálogo psicológico no hospital: uma reflexão. Rev. abordagem gestalt., Goiânia, v. 16, n. 2, p. 141-147, dez.  2010.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672010000200003&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 23 ago.  2019.

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio [acessado em 20 de junho de 2019].

https://www.iasp.info/  [acessado em 20 de junho de 2019]

https://www.cvv.org.br/conheca-mais/  [acessado em 15 de agosto de 2019]

https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/09/Boletim_suicidio_MS_set17.pdf

[acessado em 15 de agosto de 2019]

http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2013/12/Suicidio-FINAL-revisao61.pdf

https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2018/02/21/servico-de-prevencao-do-suicidio-bate-recorde-e-atende-2-milhoes-em-2017.htm

http://www.ip.usp.br/site/noticia/terapia-desabafar-muda-o-cerebro-revista-epoca-012008/ [acessado em 21 de fevereiro de 2018]

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